O cineasta francês Robert Bresson é dos maiores mestres do cinema mundial. Em quase meio século de carreira dirigiu um curta e 13 longas. Formado em Artes Plásticas e Filosofia, antes de descobrir a sétima arte tentou carreira como pintor. Durante a Segunda Guerra Mundial foi preso por um ano em um campo de concentração. Em 1943 realizou seu primeiro longa e desenvolveu um estilo que ganhou fama por seu minimalismo. Seu estilo narrativo seco, direto e econômico com poucos movimentos de câmara garantem às suas obras um realismo perturbador. É isso o que vemos em Diário de Um Padre, seu terceiro trabalho, conhecido também como Diário de Um Pároco de Aldeia, de 1951. O roteiro, do próprio Bresson, é uma adaptação do romance homônimo de Georges Bernanos e nos apresenta um jovem padre, vivido pelo ator Claude Laydu, que assume a paróquia de Ambricourt, pequena vila no interior da França. Ele é recebido com hostilidade pelos locais e mesmo assim não deixa de cumprir seu dever e atende à todas e a todos que precisam de ajuda, apesar da saúde debilitada por conta de fortes dores no estômago, o que dificulta sua rotina. Filmes com religiosos são difíceis de fazer sem cair no discurso dogmático. O olhar de Bresson supera questões clericais e abraça o humano. O cineasta é preciso, econômico e impactante na abordagem que faz. E a maneira como conduz a narrativa consegue ser ao mesmo tempo poética, singela e extremamente metafórica nas muitas interpretações que nos permite ter. Há quem diga que Bresson dirigiu muito pouco. Mas não devemos julgar um artista pela quantidade de sua obra. O que prevalece é a qualidade e influência de sua filmografia. Jean-Luc Godard escreveu que “ele era o cinema francês”. Diário de Um Padre inicia o minimalismo em suas obras e mistura habilmente características do expressionismo alemão, do realismo poético francês, do neorrealismo italiano e da nouvelle vague. Bresson também foi um diretor que escreveu suas impressões sobre o Cinema, em especial no livro Notas Sobre o Cinematógrafo, que inspirou a criação do Dogma 95, na Dinamarca. E já que citei um país da Escandinávia, o sueco Ingmar Bergman se inspirou em Diário de Um Padre para realizar Luz de Inverno, segunda parte da Trilogia do Silêncio, composta por Através de Um Espelho e O Silêncio. Em tempo: a mão e a letra do diário do padre são na verdade do próprio Bresson.
DIÁRIO DE UM PADRE (Journal d’un Curé de Campagne – França 1951). Direção: Robert Bresson. Elenco: Claude Laydu, Nicole Ladmiral, Jean Riveyre, Adrien Borel, Nicole Maurey, Antoine Balpêtré e Yvette Etiévant. Duração: 115 minutos. Distribuição: Versátil.







