Existe o chamado “novo cinema argentino” e existe o cinema de Lucrecia Martel. Apesar de estar na ativa desde 1988, a cineasta realizou apenas quatro longas desde então. Dona de um estilo bastante autoral, seus filmes não são fáceis e isso é um grande elogio. A Mulher Sem Cabeça, que ela escreveu e dirigiu em 2008, é seu terceiro longa-metragem e reforça ainda mais as características que tornam sua filmografia tão especial. Somos apresentados à dentista Verônica (María Onetto), uma mulher de classe média-alta que parece ter uma vida boa em todos os aspectos. Certo dia, quando está dirigindo seu carro, ela atropela uma criatura. Não sabemos se a vítima foi uma pessoa ou um animal. Seja como for, ela não para no local para verificar o que aconteceu e segue em frente. Mas a partir daí, a culpa que sente por talvez ter matado alguém consome sua alma e começa a destrui-la por dentro. E nós, espectadores, nos encontramos também na mesma situação que Verônica, pois não sabemos o que realmente aconteceu e nem quem foi vitimado. Martel “brinca” aqui com diferentes gêneros sem que necessariamente precise assumi-los em sua narrativa. Esses gêneros se fazem presentes e ausentes ao mesmo tempo. Trata-se, na verdade, de uma “peça” que a cineasta nos prega. E é justamente nesse “jogo de esconde” que reside a genial autoralidade de Lucrecia Martel.
A MULHER SEM CABEÇA (La Mujer Sin Cabeza – Argentina/Espanha 2008). Direção: Lucrecia Martel. Elenco: María Onetto, Claudia Cantero, Inés Efron, César Bordón, Daniel Genoud, María Vaner e Guillermo Arengo. Duração: 87 minutos. Distribuição: Pandora Filmes.







