Vale realmente tudo para ser famoso? Esta pergunta está no cerne de Papagaios, primeiro longa de ficção do roteirista e diretor Douglas Soares. A ação se passa na periferia do Rio de Janeiro, onde somos apresentados a Tonico (Gero Camilo), uma subcelebridade do bairro, o mais famoso “papagaio de pirata” da capital carioca. Seu objetivo maior é aparecer na televisão. Por conta disso, ele está sempre atrás de repórteres que cobrem tragédias, bem como frequenta velórios de autoridades e artistas. Beto (Ruan Aguiar) parece ter o mesmo propósito e se aproxima de Tonico conquistando sua amizade. Soares estrutura sua narrativa inicialmente como uma comédia urbana de costumes. Mas aos poucos, uma boa dose de suspense é injetada à medida que a história avança. E isso leva Papagaios por caminhos insuspeitos. Mas será que é só isso mesmo que Tonico e Beto querem, aparecer por aparecer na TV? No caso de Tonico é visível sua solidão e a necessidade de ser reconhecido. Já Beto possui outras camadas que não são assim tão fáceis de serem identificadas e isso o torna uma figura instigante. E o roteiro, que nasceu de uma ideia do ator Humberto Carrão e do próprio diretor, é sagaz na maneira como nos leva para esse mundo de aparências onde se busca a fama ancorada na desgraça de outrem. Soares equilibra sua obra em uma tênue linha dramática entre humor e expectativa, ao mesmo tempo em que constrói um rico painel sobre a rotina de uma sociedade cada mais distante, fria, doente e incapaz de qualquer lampejo de humanidade. Em tempo, Papagaios ganhou quatro Kikitos no Festival de Cinema de Gramado de 2025: ator (Gero Camilo), longa-metragem pelo Júri Popular, direção de arte e desenho de som.
PAPAGAIOS (Brasil 2025). Direção: Douglas Soares. Elenco: Gero Camilo, Ruan Aguiar, Leo Jaime, Ernesto Piccolo, Angela Paz, Marcelo Escorel, Babi Xavier e Roney Villela. Duração: 90 minutos. Distribuição: Olhar Filmes.







